“Escola sem partido” ou “Escola sem solidariedade”?

Permitam-me falar um pouco sobre esta lamentável proposta de lei chamada “Escola sem partido”. Para quem ainda não ouviu falar nisso, a proposta diz “defender a pluralidade de ideias” e “ser contrária a uma [suposta] doutrinação ideológica de estudantes por parte de professores”, pretendendo censurar os professores que praticassem tal atividade. Os autores dizem que “o ensino não pode ser uma atividade política”. Antes de dar a minha opinião, quero apenas citar uma frase brilhante do Leandro Karnal, professor e historiador, sempre lúcido e impecável em suas falas: “Não há qualquer atividade humana que não seja política”. É claro! Isto deveria ser óbvio a qualquer um capaz de utilizar a massa cinzenta dentro de seu crânio. Nem todos, infelizmente, são capazes disso. Muitas pessoas são presas da alienação e, apesar de acharem que possuem opinião própria, nada mais fazem do que reproduzir um discurso de terceiros, servindo como marionetes a interesses poderosos, sem ter consciência disso. Outros, porém, apesar de não o declarar (propositalmente), defendem estes mesmos poderosos interesses, estando afinados com eles. Em minha opinião, dentre os defensores da proposta de “Escola sem partido”, há os dois tipos de pessoas; os inocentes úteis e os que têm uma agenda não-declarada.

O que eles querem realmente dizer quando acusam os professores de “doutrinação”? Ao longo de toda história da Escola e da Educação, sempre houve suspeitas e acusações, de certa forma compreensíveis, de que os professores usariam ou poderiam usar sua posição como ensinantes para transmitir uma visão sobre o mundo e a vida. Isto sempre existiu, oras. E, embora, compreensível, não é absolutamente uma verdade incontestável. Nenhum aluno é um recipiente vazio esperando ser completamente preenchido por um (ou mais) professor(es)! Assim como toda e qualquer atividade humana tem uma natureza política (até mesmo “o ódio ou indiferença em relação à política” é uma [lamentável] atitude política [de optar pela alienação!]), toda atividade também tem uma via dupla: enquanto afetamos também somos afetados, em qualquer tipo de relação.

Se tais suspeitas e acusações sobre a atividade do ensino SEMPRE existiram, por que, então, somente agora querem criar uma lei para tentar calar a boca dos professores? De minha parte, eu suspeito que o que incomoda os autores desta proposta de censura é O TIPO de ideias que eles supõem que os professores transmitem (como se todos os professores fossem iguais!). O que os incomoda é imaginar que os(as) professores(as), além de transmitir os conteúdos curriculares, também possam levar os estudantes a refletir, a questionar e a ser cidadãos críticos e solidários, possuidores de noções de cidadania e de solidariedade humana. O sonho destes censores, eu suponho, é a existência de uma escola sem questionamentos e sem reflexão, que apenas produza pessoas-robôs, novas peças para apenas fazer a engrenagem social funcionar, a serviço dos poderosos de sempre. Se eles pudessem, já teriam substituído todos os educadores por robôs que formassem outros robôs. Isto, na impossibilidade de eles controlarem os professores e terem apenas a seu serviço professores conservadores e reacionários, que defendessem o status-quo, o sistema político-econômico dominante e a classe privilegiada, aqueles que faturam com a exploração dos trabalhadores e não a solidariedade e a defesa da igualdade entre todas as pessoas.

Acusam a nós, professores, de sermos “de Esquerda”. Não vou aqui entrar em detalhes sobre este assunto de Esquerda e Direita, se não será impossível eu terminar este texto. Para simplificar, quero apenas deixar no ar uma pergunta: por que será que a maioria dos professores e professoras não é formada por pessoas egoístas e obscurantistas? Não será porque os professores e professoras, em geral, são pessoas instruídas, conscientes e que gostam e lidam com pessoas? Na imensa maioria dos casos, quem abraça – como eu – a atividade do magistério, é porque gosta de GENTE, não só de conhecimento. E quem gosta de gente, não gosta de egoísmo, separatismo, segregação, desigualdade e exploração do homem pelo homem.

Resumindo: meus caros exploradores; enquanto vocês não conseguirem eliminar O CORAÇÃO E A ALMA dos professores, e substituí-los por frios robôs formadores de um tipo de pessoas-robôs, a Escola SEMPRE será um lugar de TROCA de ideias, de afetos e de valorização, engrandecimento e promoção das noções de SOLIDARIEDADE, CIDADANIA, IGUALDADE, LIBERDADE E FRATERNIDADE!

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